AVC em Ribeirão Preto: Como o SAMU Agiliza o Atendimento ao Hospital de Referência

Entenda como funciona o atendimento ao AVC em Ribeirão Preto, desde o reconhecimento dos sintomas pelo SAMU até a regulação e o encaminhamento ao hospital de referência, reduzindo atrasos para tratamentos como trombólise e trombectomia. Conheça também o papel da Iniciativa Angels na organização da linha de cuidado do AVC.

Eduardo Feres

9/1/20269 min read

AVC EM RIBEIRÃO PRETO: COMO O SAMU E O HOSPITAL DE REFERÊNCIA REDUZEM O TEMPO ATÉ O TRATAMENTO

Quando falamos em Acidente Vascular Cerebral, uma frase resume a urgência do atendimento:

TEMPO É CÉREBRO.

No AVC, reconhecer os sintomas é apenas o começo.

Depois do reconhecimento, existe outra questão decisiva:

PARA ONDE ESSE PACIENTE SERÁ LEVADO?

Em Ribeirão Preto, a organização da linha de cuidado do AVC mostra como o Atendimento Pré-Hospitalar, a Regulação Médica e um hospital especializado podem trabalhar de maneira integrada para reduzir etapas desnecessárias e acelerar o acesso ao tratamento.

A cidade possui uma trajetória de organização do atendimento ao AVC que começou muito antes de receber reconhecimento internacional.

O SAMU Regional de Ribeirão Preto desenvolveu, em parceria com o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, um protocolo específico para atendimento de pacientes com suspeita de AVC.

O documento oficial estabelece que a avaliação realizada pela equipe pré-hospitalar deve fornecer informações à Regulação Médica para auxiliar na decisão sobre o destino mais adequado do paciente.

Isso significa algo extremamente importante:

O HOSPITAL MAIS PRÓXIMO NEM SEMPRE É O DESTINO MAIS ADEQUADO.

Dependendo da situação clínica e da decisão da Regulação Médica, um paciente com suspeita de AVC pode ser encaminhado diretamente para um hospital terciário preparado para o tratamento.

O objetivo é diminuir atrasos dentro da própria rede de urgência.

POR QUE ISSO FAZ TANTA DIFERENÇA?

Imagine duas situações.

Na primeira:

O paciente apresenta sinais de AVC.

A ambulância o transporta para uma unidade intermediária.

Ele é avaliado.

Uma nova transferência precisa ser solicitada.

A Regulação Médica precisa encontrar o destino.

Uma nova ambulância pode precisar realizar a transferência.

Somente depois o paciente chega ao hospital capaz de realizar o tratamento definitivo.

Agora imagine outro fluxo:

A equipe do SAMU reconhece os sinais.

Identifica o horário de início dos sintomas.

Realiza a avaliação inicial.

Verifica glicemia e sinais vitais.

Aplica a avaliação neurológica.

Comunica imediatamente a Regulação Médica.

O caso é discutido.

Quando indicado, o paciente é regulado diretamente para o hospital de referência.

Uma etapa intermediária pode deixar de existir.

E quando estamos falando de AVC, retirar uma etapa desnecessária significa economizar tempo cerebral.

O PROTOCOLO DE AVC DO SAMU DE RIBEIRÃO PRETO

O protocolo regional disponibilizado pelo SAMU de Ribeirão Preto orienta a equipe a realizar avaliação primária, avaliação de sinais vitais, glicemia capilar e avaliação neurológica.

Entre as ferramentas previstas está a Escala de AVC de Cincinnati.

Outro ponto recebe destaque especial:

DETERMINAR PRECISAMENTE O TEMPO DE INÍCIO DOS SINTOMAS.

Essa informação deve ser transmitida ao Médico Regulador.

A equipe também estabelece contato com a Central de Regulação Médica e descreve o quadro clínico encontrado.

Quando a Regulação Médica indica atendimento em hospital terciário, o paciente pode ser encaminhado diretamente ao serviço apropriado.

Esse detalhe muda completamente a lógica do atendimento.

A ambulância deixa de funcionar apenas como meio de transporte.

Ela passa a ser parte ativa de uma linha de cuidado tempo-dependente.

O ATENDIMENTO COMEÇA ANTES DO HOSPITAL

Quando uma equipe do SAMU chega até um paciente com suspeita de AVC, o relógio já está correndo.

Por isso, algumas informações precisam ser obtidas rapidamente.

Entre elas:

  • Quando os sintomas começaram?

  • Qual foi o último momento em que o paciente foi visto normal?

  • Existe assimetria facial?

  • Existe fraqueza em um dos braços?

  • Existe alteração da fala?

  • Qual é o nível de consciência?

  • Qual é a glicemia?

  • Quais são os sinais vitais?

  • Existe uso de anticoagulantes?

  • Quais doenças prévias esse paciente apresenta?

Essas informações não servem apenas para preencher uma ficha.

Elas ajudam a definir o próximo passo.

REGULAÇÃO MÉDICA: UMA PARTE FUNDAMENTAL DO PROCESSO

É importante entender que a equipe da ambulância não simplesmente escolhe qualquer hospital e segue para lá.

Existe uma rede.

Existe disponibilidade de recursos.

Existe perfil assistencial.

Existe gravidade.

Existe capacidade de receber aquele paciente.

E existe Regulação Médica.

Na estrutura de Ribeirão Preto, a Central de Regulação gerencia o fluxo de pacientes nas urgências e emergências e direciona os casos para os serviços do SUS de acordo com a necessidade assistencial.

O próprio Hospital das Clínicas informa que o acesso de pacientes às urgências reguladas depende da Central de Regulação Médica.

Por isso, a frase mais correta não é:

“Todo AVC vai direto para o HC.”

A frase correta é:

O PACIENTE COM SUSPEITA DE AVC É AVALIADO, REGULADO E DIRECIONADO AO SERVIÇO ADEQUADO CONFORME O QUADRO E A ORGANIZAÇÃO DA REDE.

Quando o centro especializado é indicado, evitar uma passagem intermediária desnecessária pode fazer enorme diferença.

HC-UE: REFERÊNCIA NO ATENDIMENTO AO AVC

A Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP possui uma Unidade de Acidente Vascular Cerebral e funciona como importante polo regional de urgência e emergência.

Ali, o paciente com AVC pode ter acesso a uma estrutura especializada que envolve:

  • avaliação neurológica;

  • exames de imagem;

  • Unidade de AVC;

  • tratamento trombolítico em pacientes selecionados;

  • trombectomia mecânica em casos indicados;

  • cuidados intensivos quando necessários;

  • acompanhamento multiprofissional.

Essa estrutura é fundamental porque o tratamento do AVC depende não apenas do diagnóstico, mas da velocidade com que todo o processo acontece.

TOMOGRAFIA NÃO PODE VIR TARDE

Quando um paciente chega com suspeita de AVC, uma das prioridades é determinar rapidamente qual tipo de AVC está acontecendo.

AVC ISQUÊMICO?

Ou

AVC HEMORRÁGICO?

Essa diferença muda completamente o tratamento.

Por isso, o exame de imagem é parte fundamental da avaliação.

Não basta reconhecer a boca torta, a alteração da fala ou a fraqueza no braço.

É necessário transformar rapidamente a suspeita clínica em diagnóstico e decisão terapêutica.

TROMBÓLISE: QUANDO O TEMPO DEFINE POSSIBILIDADES

Em determinados pacientes com AVC isquêmico, medicamentos trombolíticos podem ser utilizados para tentar restabelecer o fluxo sanguíneo.

Mas essa decisão depende de critérios específicos.

Tempo de evolução.

Imagem.

Condições clínicas.

Contraindicações.

Gravidade.

Por isso, cada atraso antes da chegada ao serviço adequado pode interferir nas possibilidades terapêuticas.

Daí a importância do conceito:

JANELA TERAPÊUTICA.

O relógio começa no início dos sintomas, não na chegada ao hospital.

TROMBECTOMIA MECÂNICA

Alguns pacientes apresentam obstrução de grandes vasos cerebrais e podem ter indicação de trombectomia mecânica.

Nesse procedimento, uma equipe especializada utiliza técnicas endovasculares para remover o coágulo responsável pela obstrução.

Ribeirão Preto possui experiência importante nessa área.

O HC-FMRP participou do estudo brasileiro RESILIENT, que forneceu evidências importantes para a incorporação da trombectomia mecânica ao SUS. A instituição já utilizava a técnica anteriormente e possui estrutura especializada para esse atendimento.

Mais uma vez:

O TEMPO IMPORTA.

Mas existe outra mensagem:

O DESTINO TAMBÉM IMPORTA.

Não adianta transportar rapidamente um paciente que necessita de tratamento especializado para um local que não possui aquele recurso, se a rede organizada permite direcioná-lo adequadamente.

É aqui que o APH e a Regulação fazem enorme diferença.

RIBEIRÃO PRETO E A INICIATIVA ANGELS

Em 2023, Ribeirão Preto recebeu um reconhecimento histórico.

A cidade tornou-se a primeira Cidade Angels do mundo.

A proposta da Iniciativa Angels é diferente de simplesmente premiar um hospital.

A lógica é avaliar e melhorar toda a jornada do paciente com AVC.

População.

Reconhecimento dos sintomas.

SAMU.

Atendimento pré-hospitalar.

Regulação.

Hospital.

Tratamento.

Reabilitação.

Tudo precisa conversar.

Foi justamente essa integração que colocou Ribeirão Preto como projeto pioneiro da estratégia Cidade Angels.

POR QUE NÃO BASTA TER UM BOM HOSPITAL?

Imagine uma cidade com um hospital fantástico.

Mas a população demora para reconhecer AVC.

O paciente demora para ligar para o SAMU.

A ambulância não possui protocolo.

A informação não chega adequadamente à Regulação.

O paciente passa por diversos serviços antes de chegar ao centro especializado.

O hospital pode ser excelente.

Mas parte da janela terapêutica já foi perdida.

Agora pense no cenário inverso.

A população reconhece.

O SAMU identifica.

A equipe coleta as informações necessárias.

A Regulação recebe uma comunicação objetiva.

O hospital é avisado.

O paciente chega ao serviço adequado.

A imagem é realizada rapidamente.

A equipe decide o tratamento.

Essa é a lógica de uma linha de cuidado.

O AVC NÃO COMEÇA NA PORTA DO HOSPITAL.

O AVC COMEÇA ONDE O PACIENTE ESTÁ.

SAMU DE RIBEIRÃO PRETO TAMBÉM RECEBEU RECONHECIMENTO

Durante o processo que levou Ribeirão Preto ao reconhecimento como Cidade Angels, o desempenho do atendimento pré-hospitalar também foi avaliado.

Segundo a própria Iniciativa Angels, o SAMU de Ribeirão Preto alcançou reconhecimento na categoria Diamante no EMS Angels Awards.

Isso é especialmente relevante porque mostra que a qualidade da linha de AVC não depende apenas do hospital.

O pré-hospitalar precisa funcionar.

E O HC-UE CONTINUOU EVOLUINDO

Em abril de 2026, a Universidade de São Paulo informou que a Unidade de Emergência do HC de Ribeirão Preto alcançou o Status Diamante no WSO Angels Awards 2025.

A certificação considera indicadores como rapidez na avaliação, realização de exames de imagem, tempo para início da trombólise e organização dos procedimentos de trombectomia.

A instituição já havia recebido reconhecimentos anteriores nas categorias Platinum e Gold.

Isso demonstra que o projeto não terminou com a certificação da cidade.

A linha de cuidado continua sendo avaliada e aperfeiçoada.

PROTOCOLO ANGELS OU PROTOCOLO DO SAMU?

Aqui existe uma diferença importante.

É comum ouvirmos expressões como:

“Protocolo Angels.”

Mas, tecnicamente, o protocolo regional de AVC utilizado pelo SAMU de Ribeirão Preto é anterior ao reconhecimento da cidade pela Iniciativa Angels.

O documento regional disponibilizado pela Prefeitura é de 2016 e foi desenvolvido pelo SAMU em parceria com o Hospital das Clínicas.

A certificação Cidade Angels ocorreu em 2023.

Portanto, o mais correto é dizer:

RIBEIRÃO PRETO POSSUI UMA LINHA REGIONAL DE CUIDADO DO AVC, COM PROTOCOLO PRÉ-HOSPITALAR E INTEGRAÇÃO ENTRE SAMU, REGULAÇÃO E HOSPITAL DE REFERÊNCIA, QUE POSTERIORMENTE TAMBÉM PASSOU A FAZER PARTE DA ESTRATÉGIA CIDADE ANGELS.

Essa diferença parece pequena.

Mas tecnicamente é importante.

O PROTOCOLO PUBLICADO É DE 2016

Outro cuidado necessário:

O documento do protocolo do SAMU disponível publicamente tem data de 12 de fevereiro de 2016.

Desde então, o tratamento do AVC evoluiu.

Novos critérios de seleção por imagem foram incorporados.

A trombectomia mecânica ganhou espaço.

As possibilidades terapêuticas se ampliaram para determinados pacientes.

Portanto, não devemos pegar limites de tempo descritos em um documento antigo e transformá-los em regras universais atuais.

O princípio que permanece extremamente atual é:

RECONHECER RAPIDAMENTE.

DETERMINAR O TEMPO DE INÍCIO.

COMUNICAR A REGULAÇÃO.

DIRECIONAR PARA O SERVIÇO ADEQUADO.

O próprio site atual do SAMU Regional de Ribeirão Preto continua disponibilizando um protocolo específico e uma ficha para suspeita de AVC.

TEMPO É CÉREBRO, MAS DESTINO TAMBÉM É TRATAMENTO

Talvez essa seja a grande mensagem da experiência de Ribeirão Preto.

Quando falamos de emergências tempo-dependentes, não basta colocar o paciente dentro de uma ambulância rapidamente.

Precisamos responder:

QUAL É O PROBLEMA?

QUANDO COMEÇOU?

QUAL É A GRAVIDADE?

DE QUAIS RECURSOS ELE PODE PRECISAR?

QUAL SERVIÇO É CAPAZ DE OFERECER ESSES RECURSOS?

E COMO CHEGAR ATÉ ELE COM O MENOR ATRASO POSSÍVEL?

É nesse momento que avaliação pré-hospitalar, Regulação Médica e rede hospitalar deixam de funcionar como setores separados.

Eles passam a funcionar como uma cadeia.

E uma cadeia é tão forte quanto a integração entre seus elos.

O QUE A POPULAÇÃO PRECISA SABER?

Toda essa estrutura perde eficiência se o primeiro passo demorar.

Por isso, diante de sinais súbitos como:

  • boca torta;

  • fraqueza em um braço ou perna;

  • alteração da fala;

  • dificuldade para compreender;

  • alteração súbita da visão;

  • perda súbita do equilíbrio;

  • déficit neurológico de início repentino;

NÃO ESPERE MELHORAR.

NÃO LEVE PRIMEIRO À FARMÁCIA.

NÃO MEDIQUE POR CONTA PRÓPRIA.

ACIONE O SERVIÇO DE EMERGÊNCIA.

SAMU – 192.

Informe quando os sintomas começaram.

Se não souber, tente identificar quando a pessoa foi vista bem pela última vez.

Essa informação pode ser extremamente importante para a equipe.

E PARA QUEM TRABALHA NO APH?

O caso de Ribeirão Preto ensina algo que vai muito além do AVC.

APH NÃO É APENAS TRANSPORTAR.

É:

RECONHECER.

PRIORIZAR.

AVALIAR.

COMUNICAR.

REGULAR.

TRANSPORTAR PARA O DESTINO CERTO.

REAVALIAR.

Quando o profissional entende a rede em que trabalha, ele passa a compreender por que cada pergunta realizada na cena pode modificar todo o caminho do paciente.

O horário dos sintomas não é burocracia.

A glicemia não é apenas mais um sinal.

A escala neurológica não é apenas preenchimento de ficha.

A comunicação com a Regulação não é apenas “passar o caso”.

Cada informação ajuda a colocar aquele paciente no caminho correto.

RIBEIRÃO PRETO MOSTRA QUE A LINHA DE CUIDADO PODE COMEÇAR NA RUA

A experiência regional reúne algo que deveria ser objetivo de toda rede de urgência:

população capaz de reconhecer sinais;

atendimento pré-hospitalar treinado;

protocolo definido;

Regulação Médica;

hospital especializado;

diagnóstico rápido;

tratamento baseado em critérios;

e acompanhamento do desempenho.

É isso que transforma vários serviços diferentes em uma verdadeira linha de cuidado.

Porque diante do AVC:

CADA MINUTO IMPORTA.

MAS O CAMINHO QUE O PACIENTE PERCORRE TAMBÉM IMPORTA.

TEMPO É CÉREBRO.

E NO AVC, LEVAR O PACIENTE AO SERVIÇO CERTO TAMBÉM FAZ PARTE DO TRATAMENTO.

REFERÊNCIAS

Secretaria Municipal da Saúde de Ribeirão Preto – SAMU Regional – Protocolo de AVC.

Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP.

Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP.

Jornal da USP.

Iniciativa Angels / World Stroke Organization.

Conteúdo destinado à educação em saúde. Os fluxos assistenciais podem ser atualizados e variam conforme critérios clínicos, disponibilidade da rede e determinação da Regulação Médica. Profissionais devem seguir os protocolos institucionais vigentes.