Parada Cardiorrespiratória (PCR) no APH: RCP, DEA e Primeiros Minutos
Saiba como reconhecer uma parada cardiorrespiratória (PCR), iniciar uma RCP de qualidade, utilizar o DEA e organizar o atendimento pré-hospitalar nos primeiros minutos.
PCR NO APH: O QUE FAZER NOS PRIMEIROS MINUTOS?
Uma parada cardiorrespiratória transforma uma ocorrência em uma corrida contra o tempo.
No Atendimento Pré-Hospitalar, não basta saber realizar compressões torácicas. A equipe precisa reconhecer rapidamente a PCR, iniciar uma RCP de alta qualidade, utilizar o desfibrilador precocemente e trabalhar de maneira organizada.
As Diretrizes 2025 da American Heart Association reforçam justamente esses pilares: reconhecimento rápido, ativação do sistema de emergência, RCP de alta qualidade e desfibrilação precoce.
O objetivo deste artigo é entender o que realmente precisa acontecer nos primeiros minutos de uma PCR no ambiente pré-hospitalar.
COMO RECONHECER UMA PCR?
No adulto, suspeite de parada cardiorrespiratória diante de um paciente:
Inconsciente ou não responsivo.
Sem respiração normal.
Apresentando apenas gasping ou respiração agônica.
Sem pulso central identificado pelo profissional de saúde.
Para profissionais de saúde, a verificação do pulso não deve ultrapassar 10 segundos.
Se não for possível identificar definitivamente um pulso nesse período, deve-se considerar PCR e iniciar imediatamente a ressuscitação.
GASPING NÃO É RESPIRAÇÃO NORMAL
Esse é um ponto extremamente importante.
O paciente em PCR pode apresentar movimentos respiratórios anormais, lentos, irregulares e aparentemente ofegantes.
É o chamado gasping.
Esses movimentos podem gerar a falsa impressão de que o paciente ainda está respirando adequadamente.
Não está.
Paciente inconsciente, sem resposta e apresentando apenas gasping deve levantar forte suspeita de parada cardiorrespiratória.
RECONHECEU A PCR? COMEÇOU A RCP.
Depois do reconhecimento, não existe espaço para uma sequência longa de procedimentos antes das compressões.
As compressões torácicas devem ser iniciadas rapidamente.
No adulto, as diretrizes atuais recomendam:
Frequência de 100 a 120 compressões por minuto.
Profundidade de pelo menos 5 cm.
Evitar compressões excessivamente profundas, acima de aproximadamente 6 cm.
Permitir retorno completo do tórax após cada compressão.
Minimizar as interrupções.
Evitar ventilação excessiva.
RCP DE ALTA QUALIDADE É MUITO MAIS QUE “APERTAR O PEITO”
Uma compressão torácica inadequada também significa uma ressuscitação inadequada.
Alguns erros frequentes são:
Compressões muito rápidas.
Compressões muito lentas.
Compressões superficiais.
Apoiar o peso sobre o tórax entre as compressões.
Interromper frequentemente a massagem cardíaca.
Demorar excessivamente para analisar o ritmo.
Parar a RCP enquanto outro profissional prepara equipamentos.
Ventilar excessivamente.
Durante uma PCR, cada profissional precisa entender que o objetivo é manter o maior tempo possível de compressões efetivas.
TROCAR O COMPRESSOR
Realizar compressões torácicas de qualidade gera fadiga rapidamente.
Por isso, quando existem dois ou mais profissionais disponíveis, é razoável trocar o responsável pelas compressões aproximadamente a cada dois minutos.
A troca deve ser organizada e rápida para evitar grandes interrupções na RCP.
30 COMPRESSÕES E 2 VENTILAÇÕES
Na PCR do adulto sem via aérea avançada, a equipe pode trabalhar utilizando:
30 compressões
para
2 ventilações.
As ventilações devem produzir elevação visível do tórax.
Não é necessário “esvaziar o Ambu” dentro do paciente.
Ventilar excessivamente pode aumentar a pressão intratorácica, favorecer insuflação gástrica e prejudicar a circulação produzida durante a RCP.
A ventilação com bolsa-válvula-máscara é uma habilidade técnica que exige treinamento e boa vedação da máscara. Quando existem profissionais treinados disponíveis, a técnica realizada por dois socorristas tende a facilitar abertura da via aérea, vedação adequada e ventilação.
O DEA DEVE ENTRAR CEDO
Enquanto um profissional inicia as compressões, outro deve preparar o desfibrilador externo automático ou o equipamento disponível no serviço.
O DEA não deve ficar dentro da bolsa esperando alguém “terminar alguns ciclos”.
Assim que estiver disponível:
Ligue o aparelho.
Exponha o tórax.
Posicione corretamente as pás adesivas.
Permita a análise do ritmo.
Afaste todos do paciente quando solicitado.
Realize o choque quando indicado.
Retome imediatamente as compressões após o choque.
Não fique procurando pulso imediatamente após cada choque.
As diretrizes recomendam retomada imediata das compressões após a desfibrilação.
TODO RITMO DE PCR RECEBE CHOQUE?
Não.
Esse conceito precisa estar muito claro.
Os ritmos de parada são divididos em:
RITMOS CHOCÁVEIS
Fibrilação ventricular – FV.
Taquicardia ventricular sem pulso – TVSP.
RITMOS NÃO CHOCÁVEIS
Assistolia.
Atividade elétrica sem pulso – AESP.
O desfibrilador não “reinicia qualquer coração parado”.
A indicação do choque depende do ritmo apresentado.
ORGANIZAÇÃO DA EQUIPE FAZ DIFERENÇA
Uma PCR não pode ser conduzida com todos fazendo tudo ao mesmo tempo.
Imagine uma equipe pré-hospitalar chegando e identificando a parada.
Rapidamente podem ser distribuídas funções:
PROFISSIONAL 1 Compressões torácicas.
PROFISSIONAL 2 Via aérea e ventilação.
PROFISSIONAL 3 DEA/desfibrilador e equipamentos.
PROFISSIONAL 4, QUANDO DISPONÍVEL Apoio, registro, acesso vascular, medicações e comunicação conforme nível da equipe e protocolo.
As funções podem mudar conforme a composição e os recursos disponíveis.
O importante é existir coordenação.
PCR NÃO É HORA DE TODO MUNDO DAR ORDEM
Uma equipe de alto desempenho precisa ter liderança definida.
Isso não significa que apenas uma pessoa trabalha.
Significa que alguém mantém a visão geral da ressuscitação:
Observa a qualidade da RCP.
Controla o tempo.
Organiza as trocas.
Solicita as intervenções.
Confirma as tarefas.
Coordena a análise do ritmo.
Mantém comunicação com a equipe.
Planeja os próximos passos.
Comunicação objetiva reduz erros.
Um exemplo:
“João, prepare o DEA.”
“DEA preparado.”
“Maria, assuma as compressões na próxima análise.”
“Entendido.”
Essa é a chamada comunicação em circuito fechado.
TODOS DEVEM PARAR QUANDO O DEA ESTÁ SENDO PREPARADO?
Não.
Esse erro ainda acontece.
Enquanto o desfibrilador está sendo preparado, as compressões devem continuar sempre que possível.
As interrupções devem ser reduzidas ao mínimo necessário para análise do ritmo e aplicação do choque.
A RCP não deve parar simplesmente porque outro profissional está organizando equipamentos.
E SE A EQUIPE CONSEGUIR O RETORNO DA CIRCULAÇÃO?
Quando ocorre o retorno da circulação espontânea, conhecido pela sigla ROSC, o atendimento ainda não acabou.
O paciente continua crítico.
A equipe deve iniciar os cuidados pós-parada e reavaliar:
Via aérea.
Respiração.
Oxigenação.
Ventilação.
Circulação.
Pressão arterial.
Nível de consciência.
Ritmo cardíaco.
Possíveis causas da parada.
Necessidade de transporte e suporte avançado.
O objetivo deixou de ser apenas recuperar circulação.
Agora precisamos preservar cérebro, coração e demais órgãos.
PCR NO APH É TRABALHO DE EQUIPE
Uma ressuscitação eficiente não depende somente do profissional que está realizando as compressões.
Depende de todo o sistema.
É preciso:
RECONHECER.
COMPRIMIR.
VENTILAR.
DESFIBRILAR.
ORGANIZAR.
REAVALIAR.
E fazer tudo isso com o menor número possível de interrupções.
RESUMINDO
Encontrou paciente inconsciente?
Avalie rapidamente.
Não respira normalmente ou apresenta apenas gasping?
Verifique o pulso central por no máximo 10 segundos.
Não identificou pulso?
INICIE A RCP.
Compressões:
100 a 120 por minuto.
Profundidade:
Pelo menos 5 cm no adulto, evitando ultrapassar aproximadamente 6 cm.
Sem via aérea avançada:
30 compressões para 2 ventilações.
DEA disponível?
UTILIZE-O O MAIS RAPIDAMENTE POSSÍVEL.
Choque indicado?
CHOQUE E RETORNO IMEDIATO ÀS COMPRESSÕES.
E lembre-se:
UMA PCR BEM ATENDIDA NÃO É UMA SEQUÊNCIA DE PROCEDIMENTOS ISOLADOS.
É UMA EQUIPE TRABALHANDO DE FORMA ORGANIZADA CONTRA O TEMPO.
REFERÊNCIA PRINCIPAL
American Heart Association – 2025 Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care.
Conteúdo destinado à educação em saúde. As condutas assistenciais devem seguir protocolos institucionais, legislação profissional, competências da equipe e diretrizes vigentes.
As recomendações numéricas acima estão alinhadas às Diretrizes AHA 2025: 100–120 compressões/min, profundidade mínima de 5 cm no adulto evitando ultrapassar 6 cm, retorno completo do tórax e minimização das interrupções. �




