Parada Cardiorrespiratória (PCR) no APH: RCP, DEA e Primeiros Minutos

Saiba como reconhecer uma parada cardiorrespiratória (PCR), iniciar uma RCP de qualidade, utilizar o DEA e organizar o atendimento pré-hospitalar nos primeiros minutos.

Eduardo Feres

9/23/20265 min read

PCR NO APH: O QUE FAZER NOS PRIMEIROS MINUTOS?

Uma parada cardiorrespiratória transforma uma ocorrência em uma corrida contra o tempo.

No Atendimento Pré-Hospitalar, não basta saber realizar compressões torácicas. A equipe precisa reconhecer rapidamente a PCR, iniciar uma RCP de alta qualidade, utilizar o desfibrilador precocemente e trabalhar de maneira organizada.

As Diretrizes 2025 da American Heart Association reforçam justamente esses pilares: reconhecimento rápido, ativação do sistema de emergência, RCP de alta qualidade e desfibrilação precoce.

O objetivo deste artigo é entender o que realmente precisa acontecer nos primeiros minutos de uma PCR no ambiente pré-hospitalar.

COMO RECONHECER UMA PCR?

No adulto, suspeite de parada cardiorrespiratória diante de um paciente:

Inconsciente ou não responsivo.

Sem respiração normal.

Apresentando apenas gasping ou respiração agônica.

Sem pulso central identificado pelo profissional de saúde.

Para profissionais de saúde, a verificação do pulso não deve ultrapassar 10 segundos.

Se não for possível identificar definitivamente um pulso nesse período, deve-se considerar PCR e iniciar imediatamente a ressuscitação.

GASPING NÃO É RESPIRAÇÃO NORMAL

Esse é um ponto extremamente importante.

O paciente em PCR pode apresentar movimentos respiratórios anormais, lentos, irregulares e aparentemente ofegantes.

É o chamado gasping.

Esses movimentos podem gerar a falsa impressão de que o paciente ainda está respirando adequadamente.

Não está.

Paciente inconsciente, sem resposta e apresentando apenas gasping deve levantar forte suspeita de parada cardiorrespiratória.

RECONHECEU A PCR? COMEÇOU A RCP.

Depois do reconhecimento, não existe espaço para uma sequência longa de procedimentos antes das compressões.

As compressões torácicas devem ser iniciadas rapidamente.

No adulto, as diretrizes atuais recomendam:

Frequência de 100 a 120 compressões por minuto.

Profundidade de pelo menos 5 cm.

Evitar compressões excessivamente profundas, acima de aproximadamente 6 cm.

Permitir retorno completo do tórax após cada compressão.

Minimizar as interrupções.

Evitar ventilação excessiva.

RCP DE ALTA QUALIDADE É MUITO MAIS QUE “APERTAR O PEITO”

Uma compressão torácica inadequada também significa uma ressuscitação inadequada.

Alguns erros frequentes são:

Compressões muito rápidas.

Compressões muito lentas.

Compressões superficiais.

Apoiar o peso sobre o tórax entre as compressões.

Interromper frequentemente a massagem cardíaca.

Demorar excessivamente para analisar o ritmo.

Parar a RCP enquanto outro profissional prepara equipamentos.

Ventilar excessivamente.

Durante uma PCR, cada profissional precisa entender que o objetivo é manter o maior tempo possível de compressões efetivas.

TROCAR O COMPRESSOR

Realizar compressões torácicas de qualidade gera fadiga rapidamente.

Por isso, quando existem dois ou mais profissionais disponíveis, é razoável trocar o responsável pelas compressões aproximadamente a cada dois minutos.

A troca deve ser organizada e rápida para evitar grandes interrupções na RCP.

30 COMPRESSÕES E 2 VENTILAÇÕES

Na PCR do adulto sem via aérea avançada, a equipe pode trabalhar utilizando:

30 compressões

para

2 ventilações.

As ventilações devem produzir elevação visível do tórax.

Não é necessário “esvaziar o Ambu” dentro do paciente.

Ventilar excessivamente pode aumentar a pressão intratorácica, favorecer insuflação gástrica e prejudicar a circulação produzida durante a RCP.

A ventilação com bolsa-válvula-máscara é uma habilidade técnica que exige treinamento e boa vedação da máscara. Quando existem profissionais treinados disponíveis, a técnica realizada por dois socorristas tende a facilitar abertura da via aérea, vedação adequada e ventilação.

O DEA DEVE ENTRAR CEDO

Enquanto um profissional inicia as compressões, outro deve preparar o desfibrilador externo automático ou o equipamento disponível no serviço.

O DEA não deve ficar dentro da bolsa esperando alguém “terminar alguns ciclos”.

Assim que estiver disponível:

Ligue o aparelho.

Exponha o tórax.

Posicione corretamente as pás adesivas.

Permita a análise do ritmo.

Afaste todos do paciente quando solicitado.

Realize o choque quando indicado.

Retome imediatamente as compressões após o choque.

Não fique procurando pulso imediatamente após cada choque.

As diretrizes recomendam retomada imediata das compressões após a desfibrilação.

TODO RITMO DE PCR RECEBE CHOQUE?

Não.

Esse conceito precisa estar muito claro.

Os ritmos de parada são divididos em:

RITMOS CHOCÁVEIS

Fibrilação ventricular – FV.

Taquicardia ventricular sem pulso – TVSP.

RITMOS NÃO CHOCÁVEIS

Assistolia.

Atividade elétrica sem pulso – AESP.

O desfibrilador não “reinicia qualquer coração parado”.

A indicação do choque depende do ritmo apresentado.

ORGANIZAÇÃO DA EQUIPE FAZ DIFERENÇA

Uma PCR não pode ser conduzida com todos fazendo tudo ao mesmo tempo.

Imagine uma equipe pré-hospitalar chegando e identificando a parada.

Rapidamente podem ser distribuídas funções:

PROFISSIONAL 1 Compressões torácicas.

PROFISSIONAL 2 Via aérea e ventilação.

PROFISSIONAL 3 DEA/desfibrilador e equipamentos.

PROFISSIONAL 4, QUANDO DISPONÍVEL Apoio, registro, acesso vascular, medicações e comunicação conforme nível da equipe e protocolo.

As funções podem mudar conforme a composição e os recursos disponíveis.

O importante é existir coordenação.

PCR NÃO É HORA DE TODO MUNDO DAR ORDEM

Uma equipe de alto desempenho precisa ter liderança definida.

Isso não significa que apenas uma pessoa trabalha.

Significa que alguém mantém a visão geral da ressuscitação:

Observa a qualidade da RCP.

Controla o tempo.

Organiza as trocas.

Solicita as intervenções.

Confirma as tarefas.

Coordena a análise do ritmo.

Mantém comunicação com a equipe.

Planeja os próximos passos.

Comunicação objetiva reduz erros.

Um exemplo:

“João, prepare o DEA.”

“DEA preparado.”

“Maria, assuma as compressões na próxima análise.”

“Entendido.”

Essa é a chamada comunicação em circuito fechado.

TODOS DEVEM PARAR QUANDO O DEA ESTÁ SENDO PREPARADO?

Não.

Esse erro ainda acontece.

Enquanto o desfibrilador está sendo preparado, as compressões devem continuar sempre que possível.

As interrupções devem ser reduzidas ao mínimo necessário para análise do ritmo e aplicação do choque.

A RCP não deve parar simplesmente porque outro profissional está organizando equipamentos.

E SE A EQUIPE CONSEGUIR O RETORNO DA CIRCULAÇÃO?

Quando ocorre o retorno da circulação espontânea, conhecido pela sigla ROSC, o atendimento ainda não acabou.

O paciente continua crítico.

A equipe deve iniciar os cuidados pós-parada e reavaliar:

Via aérea.

Respiração.

Oxigenação.

Ventilação.

Circulação.

Pressão arterial.

Nível de consciência.

Ritmo cardíaco.

Possíveis causas da parada.

Necessidade de transporte e suporte avançado.

O objetivo deixou de ser apenas recuperar circulação.

Agora precisamos preservar cérebro, coração e demais órgãos.

PCR NO APH É TRABALHO DE EQUIPE

Uma ressuscitação eficiente não depende somente do profissional que está realizando as compressões.

Depende de todo o sistema.

É preciso:

RECONHECER.

COMPRIMIR.

VENTILAR.

DESFIBRILAR.

ORGANIZAR.

REAVALIAR.

E fazer tudo isso com o menor número possível de interrupções.

RESUMINDO

Encontrou paciente inconsciente?

Avalie rapidamente.

Não respira normalmente ou apresenta apenas gasping?

Verifique o pulso central por no máximo 10 segundos.

Não identificou pulso?

INICIE A RCP.

Compressões:

100 a 120 por minuto.

Profundidade:

Pelo menos 5 cm no adulto, evitando ultrapassar aproximadamente 6 cm.

Sem via aérea avançada:

30 compressões para 2 ventilações.

DEA disponível?

UTILIZE-O O MAIS RAPIDAMENTE POSSÍVEL.

Choque indicado?

CHOQUE E RETORNO IMEDIATO ÀS COMPRESSÕES.

E lembre-se:

UMA PCR BEM ATENDIDA NÃO É UMA SEQUÊNCIA DE PROCEDIMENTOS ISOLADOS.

É UMA EQUIPE TRABALHANDO DE FORMA ORGANIZADA CONTRA O TEMPO.

REFERÊNCIA PRINCIPAL

American Heart Association – 2025 Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care.

Conteúdo destinado à educação em saúde. As condutas assistenciais devem seguir protocolos institucionais, legislação profissional, competências da equipe e diretrizes vigentes.

As recomendações numéricas acima estão alinhadas às Diretrizes AHA 2025: 100–120 compressões/min, profundidade mínima de 5 cm no adulto evitando ultrapassar 6 cm, retorno completo do tórax e minimização das interrupções. �

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