Stop the Bleed: Como Agir Diante de uma Hemorragia Grave

Entenda o que é o Stop the Bleed e aprenda os princípios de pressão direta, preenchimento de ferida, gaze hemostática e torniquete

Eduardo Feres

9/15/20265 min read

HEMORRAGIA NO TRAUMA: COMO RECONHECER E CONTROLAR UM SANGRAMENTO GRAVE

Quando falamos em trauma, uma das maiores prioridades é reconhecer rapidamente uma hemorragia capaz de ameaçar a vida.

Uma pessoa pode perder uma quantidade significativa de sangue em poucos minutos.

Por isso, no XABCDE do trauma, a hemorragia externa exsanguinante aparece antes mesmo da avaliação da via aérea.

É o “X” do XABCDE.

Mas existe uma diferença importante:

NEM TODO SANGRAMENTO É UMA HEMORRAGIA EXSANGUINANTE.

O profissional precisa saber reconhecer quando aquele sangramento representa uma ameaça imediata à vida e agir rapidamente.

COMO RECONHECER UMA HEMORRAGIA GRAVE?

Alguns sinais devem chamar imediatamente a atenção da equipe:

  • Sangramento contínuo e intenso.

  • Sangue acumulando rapidamente no chão.

  • Sangramento que encharca roupas ou curativos.

  • Sangue projetado ou pulsátil.

  • Amputação traumática.

  • Ferimentos profundos com grande perda sanguínea.

  • Sangramento que não é controlado pelas medidas iniciais.

  • Paciente apresentando sinais de choque associados à perda de sangue.

Em uma situação dessas, não faz sentido terminar toda a avaliação para somente depois controlar a hemorragia.

A intervenção deve acontecer imediatamente.

PRIMEIRO: ENCONTRE A FONTE DO SANGRAMENTO

Em uma cena de trauma, nem sempre a origem da hemorragia estará imediatamente evidente.

Roupas podem esconder ferimentos.

Sangue pode escorrer e se acumular em regiões diferentes da origem da lesão.

Por isso, quando houver suspeita de sangramento importante:

EXPONHA A REGIÃO.

IDENTIFIQUE A FONTE.

CONTROLE A HEMORRAGIA.

E REAVALIE.

A avaliação precisa ser rápida, mas não pode ser superficial.

COMPRESSÃO DIRETA

A compressão direta continua sendo uma das principais ferramentas para controlar uma hemorragia externa.

A técnica parece simples, mas precisa ser realizada de maneira adequada.

O objetivo é aplicar pressão diretamente sobre a fonte do sangramento.

Utilize gaze, compressa ou material apropriado e mantenha pressão firme.

Um erro frequente é pressionar por alguns segundos, retirar a mão para “ver se parou” e repetir isso várias vezes.

Isso pode prejudicar a formação do coágulo.

Mantenha pressão adequada e reavalie conforme a situação clínica e o protocolo adotado.

PREENCHIMENTO DA FERIDA

Algumas feridas profundas não são controladas apenas colocando uma compressa sobre a superfície.

Nessas situações, pode ser necessário realizar o preenchimento da ferida, também conhecido como wound packing.

O objetivo é levar a gaze até o ponto onde o sangramento está acontecendo e preencher adequadamente a cavidade, mantendo pressão sobre a fonte da hemorragia.

Essa técnica pode ser especialmente importante em determinadas regiões nas quais um torniquete convencional não pode ser utilizado.

O princípio é:

NÃO BASTA COBRIR A FERIDA.

É PRECISO COMPRIMIR A FONTE DO SANGRAMENTO.

GAZE HEMOSTÁTICA

Quando disponível e indicada, a gaze hemostática pode ser utilizada no preenchimento de determinadas feridas com hemorragia importante.

Esses produtos possuem agentes que auxiliam o processo de controle do sangramento.

Mas existe um detalhe fundamental:

GAZE HEMOSTÁTICA NÃO SUBSTITUI PRESSÃO.

O material precisa ser utilizado de acordo com as orientações do fabricante, treinamento recebido e protocolo do serviço.

Após seu posicionamento, a pressão adequada continua sendo parte fundamental da técnica.

E O TORNIQUETE?

O torniquete é uma ferramenta extremamente importante para o controle de hemorragias graves em extremidades.

Quando corretamente indicado e aplicado, ele pode interromper rapidamente o fluxo sanguíneo para uma região e controlar uma hemorragia potencialmente fatal.

Pode ser necessário em situações como:

  • Hemorragia grave em braço ou perna.

  • Amputação traumática.

  • Sangramento de extremidade que não consegue ser controlado adequadamente por outras medidas.

  • Situações nas quais a gravidade da hemorragia exige controle imediato.

A indicação deve considerar a situação encontrada, os protocolos do serviço e o treinamento da equipe.

ONDE COLOCAR O TORNIQUETE?

O torniquete deve ser aplicado no membro afetado, proximalmente ao local da hemorragia e nunca diretamente sobre uma articulação.

A roupa precisa ser retirada ou afastada sempre que isso puder ser feito rapidamente e com segurança para permitir a identificação adequada da lesão e o posicionamento correto do dispositivo.

Em situações específicas nas quais não seja possível visualizar imediatamente o ferimento e exista hemorragia maciça de uma extremidade, protocolos operacionais podem estabelecer técnicas próprias de aplicação.

O profissional deve seguir o protocolo utilizado pelo seu serviço.

APERTAR ATÉ QUANDO?

Até a hemorragia parar.

Um torniquete efetivo precisa interromper o sangramento.

Se ainda existe hemorragia significativa após sua aplicação, o controle não está adequado.

É necessário verificar:

  • Posicionamento.

  • Aperto.

  • Funcionamento do equipamento.

  • Necessidade de medidas adicionais conforme protocolo.

A aplicação de um torniquete pode causar dor importante.

Dor não significa que o torniquete deve ser afrouxado.

NÃO AFROUXE PERIODICAMENTE O TORNIQUETE

Esse é um conceito antigo que não deve ser reproduzido.

Depois que um torniquete foi corretamente aplicado para controlar uma hemorragia potencialmente fatal, ele não deve ficar sendo afrouxado e reapertado durante o transporte.

A decisão sobre retirada ou conversão do torniquete deve seguir protocolos específicos e avaliação realizada por profissionais adequadamente treinados.

ANOTE O HORÁRIO

O horário de aplicação do torniquete é uma informação importante para a continuidade do atendimento.

Registre essa informação de maneira clara e comunique à equipe que receberá o paciente.

A passagem de informações também faz parte do tratamento.

ERROS QUE PODEM COMPROMETER O CONTROLE DA HEMORRAGIA

Alguns erros precisam ser evitados:

  • Demorar para reconhecer uma hemorragia grave.

  • Aplicar pressão insuficiente.

  • Retirar constantemente a compressa para verificar a ferida.

  • Apenas cobrir uma ferida profunda sem comprimir sua fonte.

  • Aplicar o torniquete sobre uma articulação.

  • Deixar o torniquete frouxo.

  • Afrouxar periodicamente um torniquete efetivo.

  • Não registrar o horário de aplicação.

  • Controlar o sangramento e esquecer de reavaliar o paciente.

CONTROLAR O SANGRAMENTO NÃO ENCERRA O ATENDIMENTO

Você conseguiu controlar a hemorragia.

Ótimo.

Mas o atendimento não terminou.

O paciente pode já ter perdido uma quantidade significativa de sangue.

Agora precisamos continuar o XABCDE e avaliar sinais de hipoperfusão e choque.

Observe:

  • Nível de consciência.

  • Pulso.

  • Frequência cardíaca.

  • Pressão arterial.

  • Perfusão periférica.

  • Características da pele.

  • Temperatura.

  • Respiração.

  • Evolução clínica.

E existe outro ponto extremamente importante:

PREVENIR A HIPOTERMIA.

TRAUMA + HEMORRAGIA + HIPOTERMIA É UMA COMBINAÇÃO PERIGOSA

O paciente traumatizado e hemorrágico pode perder temperatura rapidamente.

Roupa molhada.

Contato com o solo.

Exposição durante a avaliação.

Ambiente frio.

Infusão de fluidos frios.

Todos esses fatores podem contribuir.

Por isso, depois da exposição necessária para identificar as lesões, devemos adotar medidas para conservar a temperatura corporal do paciente.

O CONTROLE DA HEMORRAGIA PRECISA ACONTECER CEDO

Essa talvez seja a principal mensagem deste artigo.

Uma hemorragia potencialmente fatal não pode esperar.

Não espere:

terminar a anamnese,

medir todos os sinais vitais,

colocar o paciente na ambulância,

ou completar toda a avaliação física.

IDENTIFICOU UMA HEMORRAGIA EXSANGUINANTE?

CONTROLE.

DEPOIS CONTINUE A AVALIAÇÃO.

É exatamente por isso que o “X” vem antes do ABCDE.

RESUMINDO

Encontrou sangramento?

AVALIE A GRAVIDADE.

É uma hemorragia potencialmente fatal?

INTERVENHA IMEDIATAMENTE.

Identifique a fonte do sangramento.

Utilize a técnica apropriada conforme a localização, gravidade, recursos disponíveis, treinamento e protocolo.

As principais ferramentas incluem:

COMPRESSÃO DIRETA.

PREENCHIMENTO DA FERIDA.

GAZE HEMOSTÁTICA, QUANDO INDICADA.

TORNIQUETE, QUANDO INDICADO.

Depois:

CONFIRME SE O SANGRAMENTO PAROU.

REGISTRE AS INTERVENÇÕES.

PREVINA A HIPOTERMIA.

CONTINUE O XABCDE.

E REAVALIE.

No trauma, reconhecer uma hemorragia grave é importante.

SABER INTERROMPÊ-LA RAPIDAMENTE PODE SER A DIFERENÇA ENTRE A VIDA E A MORTE.

REFERÊNCIAS

American College of Surgeons – Stop the Bleed.

American College of Surgeons – Advanced Trauma Life Support – ATLS.

National Association of Emergency Medical Technicians – Prehospital Trauma Life Support – PHTLS.

Conteúdo destinado à educação em saúde. As técnicas devem ser realizadas por profissionais adequadamente treinados e de acordo com protocolos institucionais, legislação profissional, competências da equipe e recomendações vigentes.