Stop the Bleed: Como Agir Diante de uma Hemorragia Grave
Entenda o que é o Stop the Bleed e aprenda os princípios de pressão direta, preenchimento de ferida, gaze hemostática e torniquete


HEMORRAGIA NO TRAUMA: COMO RECONHECER E CONTROLAR UM SANGRAMENTO GRAVE
Quando falamos em trauma, uma das maiores prioridades é reconhecer rapidamente uma hemorragia capaz de ameaçar a vida.
Uma pessoa pode perder uma quantidade significativa de sangue em poucos minutos.
Por isso, no XABCDE do trauma, a hemorragia externa exsanguinante aparece antes mesmo da avaliação da via aérea.
É o “X” do XABCDE.
Mas existe uma diferença importante:
NEM TODO SANGRAMENTO É UMA HEMORRAGIA EXSANGUINANTE.
O profissional precisa saber reconhecer quando aquele sangramento representa uma ameaça imediata à vida e agir rapidamente.
COMO RECONHECER UMA HEMORRAGIA GRAVE?
Alguns sinais devem chamar imediatamente a atenção da equipe:
Sangramento contínuo e intenso.
Sangue acumulando rapidamente no chão.
Sangramento que encharca roupas ou curativos.
Sangue projetado ou pulsátil.
Amputação traumática.
Ferimentos profundos com grande perda sanguínea.
Sangramento que não é controlado pelas medidas iniciais.
Paciente apresentando sinais de choque associados à perda de sangue.
Em uma situação dessas, não faz sentido terminar toda a avaliação para somente depois controlar a hemorragia.
A intervenção deve acontecer imediatamente.
PRIMEIRO: ENCONTRE A FONTE DO SANGRAMENTO
Em uma cena de trauma, nem sempre a origem da hemorragia estará imediatamente evidente.
Roupas podem esconder ferimentos.
Sangue pode escorrer e se acumular em regiões diferentes da origem da lesão.
Por isso, quando houver suspeita de sangramento importante:
EXPONHA A REGIÃO.
IDENTIFIQUE A FONTE.
CONTROLE A HEMORRAGIA.
E REAVALIE.
A avaliação precisa ser rápida, mas não pode ser superficial.
COMPRESSÃO DIRETA
A compressão direta continua sendo uma das principais ferramentas para controlar uma hemorragia externa.
A técnica parece simples, mas precisa ser realizada de maneira adequada.
O objetivo é aplicar pressão diretamente sobre a fonte do sangramento.
Utilize gaze, compressa ou material apropriado e mantenha pressão firme.
Um erro frequente é pressionar por alguns segundos, retirar a mão para “ver se parou” e repetir isso várias vezes.
Isso pode prejudicar a formação do coágulo.
Mantenha pressão adequada e reavalie conforme a situação clínica e o protocolo adotado.
PREENCHIMENTO DA FERIDA
Algumas feridas profundas não são controladas apenas colocando uma compressa sobre a superfície.
Nessas situações, pode ser necessário realizar o preenchimento da ferida, também conhecido como wound packing.
O objetivo é levar a gaze até o ponto onde o sangramento está acontecendo e preencher adequadamente a cavidade, mantendo pressão sobre a fonte da hemorragia.
Essa técnica pode ser especialmente importante em determinadas regiões nas quais um torniquete convencional não pode ser utilizado.
O princípio é:
NÃO BASTA COBRIR A FERIDA.
É PRECISO COMPRIMIR A FONTE DO SANGRAMENTO.
GAZE HEMOSTÁTICA
Quando disponível e indicada, a gaze hemostática pode ser utilizada no preenchimento de determinadas feridas com hemorragia importante.
Esses produtos possuem agentes que auxiliam o processo de controle do sangramento.
Mas existe um detalhe fundamental:
GAZE HEMOSTÁTICA NÃO SUBSTITUI PRESSÃO.
O material precisa ser utilizado de acordo com as orientações do fabricante, treinamento recebido e protocolo do serviço.
Após seu posicionamento, a pressão adequada continua sendo parte fundamental da técnica.
E O TORNIQUETE?
O torniquete é uma ferramenta extremamente importante para o controle de hemorragias graves em extremidades.
Quando corretamente indicado e aplicado, ele pode interromper rapidamente o fluxo sanguíneo para uma região e controlar uma hemorragia potencialmente fatal.
Pode ser necessário em situações como:
Hemorragia grave em braço ou perna.
Amputação traumática.
Sangramento de extremidade que não consegue ser controlado adequadamente por outras medidas.
Situações nas quais a gravidade da hemorragia exige controle imediato.
A indicação deve considerar a situação encontrada, os protocolos do serviço e o treinamento da equipe.
ONDE COLOCAR O TORNIQUETE?
O torniquete deve ser aplicado no membro afetado, proximalmente ao local da hemorragia e nunca diretamente sobre uma articulação.
A roupa precisa ser retirada ou afastada sempre que isso puder ser feito rapidamente e com segurança para permitir a identificação adequada da lesão e o posicionamento correto do dispositivo.
Em situações específicas nas quais não seja possível visualizar imediatamente o ferimento e exista hemorragia maciça de uma extremidade, protocolos operacionais podem estabelecer técnicas próprias de aplicação.
O profissional deve seguir o protocolo utilizado pelo seu serviço.
APERTAR ATÉ QUANDO?
Até a hemorragia parar.
Um torniquete efetivo precisa interromper o sangramento.
Se ainda existe hemorragia significativa após sua aplicação, o controle não está adequado.
É necessário verificar:
Posicionamento.
Aperto.
Funcionamento do equipamento.
Necessidade de medidas adicionais conforme protocolo.
A aplicação de um torniquete pode causar dor importante.
Dor não significa que o torniquete deve ser afrouxado.
NÃO AFROUXE PERIODICAMENTE O TORNIQUETE
Esse é um conceito antigo que não deve ser reproduzido.
Depois que um torniquete foi corretamente aplicado para controlar uma hemorragia potencialmente fatal, ele não deve ficar sendo afrouxado e reapertado durante o transporte.
A decisão sobre retirada ou conversão do torniquete deve seguir protocolos específicos e avaliação realizada por profissionais adequadamente treinados.
ANOTE O HORÁRIO
O horário de aplicação do torniquete é uma informação importante para a continuidade do atendimento.
Registre essa informação de maneira clara e comunique à equipe que receberá o paciente.
A passagem de informações também faz parte do tratamento.
ERROS QUE PODEM COMPROMETER O CONTROLE DA HEMORRAGIA
Alguns erros precisam ser evitados:
Demorar para reconhecer uma hemorragia grave.
Aplicar pressão insuficiente.
Retirar constantemente a compressa para verificar a ferida.
Apenas cobrir uma ferida profunda sem comprimir sua fonte.
Aplicar o torniquete sobre uma articulação.
Deixar o torniquete frouxo.
Afrouxar periodicamente um torniquete efetivo.
Não registrar o horário de aplicação.
Controlar o sangramento e esquecer de reavaliar o paciente.
CONTROLAR O SANGRAMENTO NÃO ENCERRA O ATENDIMENTO
Você conseguiu controlar a hemorragia.
Ótimo.
Mas o atendimento não terminou.
O paciente pode já ter perdido uma quantidade significativa de sangue.
Agora precisamos continuar o XABCDE e avaliar sinais de hipoperfusão e choque.
Observe:
Nível de consciência.
Pulso.
Frequência cardíaca.
Pressão arterial.
Perfusão periférica.
Características da pele.
Temperatura.
Respiração.
Evolução clínica.
E existe outro ponto extremamente importante:
PREVENIR A HIPOTERMIA.
TRAUMA + HEMORRAGIA + HIPOTERMIA É UMA COMBINAÇÃO PERIGOSA
O paciente traumatizado e hemorrágico pode perder temperatura rapidamente.
Roupa molhada.
Contato com o solo.
Exposição durante a avaliação.
Ambiente frio.
Infusão de fluidos frios.
Todos esses fatores podem contribuir.
Por isso, depois da exposição necessária para identificar as lesões, devemos adotar medidas para conservar a temperatura corporal do paciente.
O CONTROLE DA HEMORRAGIA PRECISA ACONTECER CEDO
Essa talvez seja a principal mensagem deste artigo.
Uma hemorragia potencialmente fatal não pode esperar.
Não espere:
terminar a anamnese,
medir todos os sinais vitais,
colocar o paciente na ambulância,
ou completar toda a avaliação física.
IDENTIFICOU UMA HEMORRAGIA EXSANGUINANTE?
CONTROLE.
DEPOIS CONTINUE A AVALIAÇÃO.
É exatamente por isso que o “X” vem antes do ABCDE.
RESUMINDO
Encontrou sangramento?
AVALIE A GRAVIDADE.
É uma hemorragia potencialmente fatal?
INTERVENHA IMEDIATAMENTE.
Identifique a fonte do sangramento.
Utilize a técnica apropriada conforme a localização, gravidade, recursos disponíveis, treinamento e protocolo.
As principais ferramentas incluem:
COMPRESSÃO DIRETA.
PREENCHIMENTO DA FERIDA.
GAZE HEMOSTÁTICA, QUANDO INDICADA.
TORNIQUETE, QUANDO INDICADO.
Depois:
CONFIRME SE O SANGRAMENTO PAROU.
REGISTRE AS INTERVENÇÕES.
PREVINA A HIPOTERMIA.
CONTINUE O XABCDE.
E REAVALIE.
No trauma, reconhecer uma hemorragia grave é importante.
SABER INTERROMPÊ-LA RAPIDAMENTE PODE SER A DIFERENÇA ENTRE A VIDA E A MORTE.
REFERÊNCIAS
American College of Surgeons – Stop the Bleed.
American College of Surgeons – Advanced Trauma Life Support – ATLS.
National Association of Emergency Medical Technicians – Prehospital Trauma Life Support – PHTLS.
Conteúdo destinado à educação em saúde. As técnicas devem ser realizadas por profissionais adequadamente treinados e de acordo com protocolos institucionais, legislação profissional, competências da equipe e recomendações vigentes.


